sábado, 8 de outubro de 2011

Meu (ex)quarto.


Meu velho quarto já não me cabia. A sensação de estar ali agora era diferente. Era saudade e  mudança. Tudo numa onda só, banhando as areias do litoral das percepções que eu tinha sobre tempo e espaço, e sobre mim mesma também. Subi na cama, e com uma passada de perna já estava sentada na jardineira da janela. A vista, antes cheia de verde e calmaria, fora substituída por metros e metros de concreto e pastilhas em tom pastel. Fechei os olhos e me deixei levar, o vento soprando meu rosto, como quem diz "Como você cresceu tanto, menina?". Ainda me lembro das minhas bochechas corando, quentes, correndo e gargalhando por esta rua. Deixando a paisagem passar. Tudo passa, lentamente, e a gente nem nota, mas passa e fica lá trás, onde ninguém tem coragem de voltar, independente do motivo de cada um. Sempre enxerguei muito melhor de olhos fechados. Essa arte eu ainda domino. Considero um dom, algo pra compensar o meu jeito desastrado de derrubar tudo, deve também, ter a ver com o fracasso que sou com os números. Sempre calculando mal a distância certa entre mim e mesa de centro da sala de estar. A porta bateu, na mesma hora pensei que era o vento, bravo com o tempo, e o fato dele ser tão corrido e passar tão depressa. "Desnecessário", foi o que eu ouvi na batida desesperada contra o portal. Desci da jardineira e fechei a janela. Ainda com os dedos manchando o vidro, senti meu coração apertar. Naquele quarto morava uma menina, hoje, se despedia dele, uma moça. Passei uma alça da mochila sobre o ombro e fui lentamente me deslocando até a porta. Olhei envolta como se fosse a última vez. Eternizou-se aquela fotografia mental que fiz questão de tirar. "Pra não esquecer de onde vim, pra não esquecer quem sou." Me justificava para ninguém, com os olhos transbordando e a boca trêmula. "Como se precisasse, sua boba", disse, gentil, a minha consciência. Não respondi. Se alguém entende de mim nesse mundo, posso apostar que esse alguém é a minha consciência. Abri a porta, passei a segunda alça da mochila no ombro e puxei a mala pra fora dos limites do portal do quarto. Sorri. Não sei porque, mas sorri. E com esse sorriso, dei as costas para aquele pedaço do meu mundo. O conforto da promessa de um dia voltar, não me bastava, mas eu queria acreditar que sim, me era vital acreditar que sim. E fui, eu. E ficou-se o vazio. No quarto. E no coração.

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