segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Preto e branco, sépia e colorido.

Com a cabeça enfiada debaixo do travesseiro, passava horas maquinando se quando não fosse mais a novidade da vida dele, as coisas ainda seriam tão boas quanto eram no momento. Se ele ainda sorriria torto pra ela a cada besteira que dissesse, se ainda fingiria não notar a irritação em seu tom de voz por ele ter que desligar o telefone, e  mais todas essas coisas das quais são feitos os começos. Uma insegurança do dedo do pé até o último fio de cabelo a tomava e a deixava quase a beira de uma crise existencial. Não suportaria uma nova tentativa frustrada. Não com ele. Pensava. Mas a gente sempre aguenta, moça, o tempo mostra. Não era só confusão, era  medo também,  medo e confusão, fazendo um drink que de vez em quando lhe caia mal. Certas horas ela o entendia tão bem que podia ler seu rosto como quem lê um poema de rima fácil, já em outras, seus olhos marejavam, aflitos, temendo o que ele realmente sentia. E o medo sempre lhe golpeava o estômago, um soco certeiro na terra das incertezas. Temia tantas coisas, dentre elas que parecesse tola e estupida, coração de maria mole e pouco descolada perto de todas as jovens que pela vida daquele jovem passaram. Certamente não seria a melhor, a mais bela, nem mesmo a mais inteligente, mas seria a que mais lhe daria amor, a que mais desejaria a companhia dele mais que qualquer outra companhia no universo. E guardava as fotos deles dois como fragmentos de seu próprio coração, hora em preto e branco, hora em sépia e na maior parte das vezes bem coloridas. Num ritual bobo, observava uma por uma e podia ouvir, bem baixinho, uma música vindo de dentro dela, de seu peito, da caixinha de música em que se transforma nosso coração quando amamos muito alguém. Não tinha letra, a melodia falava por si só. Aquietando um pouco seu coração. Mas não sossegaria enquanto a luzinha do celular não piscasse azul, azul era a cor dele. Era dele, e tantas outras coisas que ela também amava. Balançava os pés bagunçando o lençol maior que o colchão. Não poderia fazer muito mais que isso, já que estava à duas horas de viagem de quem tanto amava. E cada segundo era uma guerra meio perdida por não tê-lo ao lado, e meio vencida por estar mais perto de poder vê-lo novamente. E assim passou o resto do dia, com o travesseiro na nuca e cara afundada na cama, em sua montanha russa particular, que se chamava sentir.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Esse sim é um texto sobre amor. Sobre o nosso amor.

Eu tentava me enxergar por dentro. Queria saber o que era aquele sentimento que parecia uma pipoca saltitante dentro do meu peito. Quando ele sorria, me derretia que nem manteiga. E quando me olhava sério, meu coração, já bem desgastado, me fazia pensar duas vezes sobre os prós e contras daquilo tudo. Tentei negar, quis que não fosse verdade e me peguei fingindo que tinha preguiça de recomeçar. Cada dia, uma surpresa. Cada encontro, mais e mais sentimento. Então fiz um jarro dentro do peito e decidi que ali guardaria tudo o que aquele menino era capaz de me fazer sentir. E, no meu jarro, fui acumulando sentimentos, bons sentimentos. Deitada na cama, olhava pro teto e pensava que nada mais importaria desde que eu tivesse meus pensamentos e meu jarro comigo. Era estabelecida uma conexão, meu mundo e o mundo do meu amor. Opa, amor? Quem falou 'amor' aqui? Ah, amor. Aquele amor? Não! ESSE amor. O meu amor. O meu, não. O que que eu tô dizendo? Amor também é verbo e não se conjuga sozinho, amor só cabe em nós. Não nós cegos, por que amor é laço, nó é sentimento de posse, nó é a erva daninha do amor. E assim, vendo meu jarro transbordar, descobri que quem transbordava era eu, transbordava de amor.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Esse não é um texto de amor.

Sabe quanto tempo tem? Nem eu. Eu parei de contar. Por que mesmo sabendo que não havia lhe feito nada de mau, eu ainda assim me importava e por isso, durante um tempo eu contava quanto tempo tinha. Nessa minha conta, me perdi. Nos perdemos, amigo. Hoje somos tão diferentes do que éramos naquela época, e tão iguais por outro lado. Nenhuma promessa foi quebrada, meu amigo, e àquela altura, me perguntava como você pôde não notar isso. O que mais me doía (sim, doía.) era justamente o fato de você não me conhecer como eu achava que conhecia, minhas conclusões e projeções infantis sempre me enganando, e era tudo culpa minha. Era muita sintonia, algo havia de dar errado, era zelo, era consideração. Era. Talvez, se um dia te reencontrar, numa esquina, num bar ou na fila do supermercado, eu faça que sim com a cabeça, e você me olhe com aquele olhar indiferente, ignorando todas as risadas e todos os segredos que compartilhamos durante aquele tempo. Hoje te vejo tão crescido, mas o mesmo babaca de sempre, o que um dia foi o meu babaca favorito, como um irmão. Vejo nossas vidas seguindo mais próximas que quando nos importávamos um com o outro, mas ainda assim um abismo entre elas, um abismo que eu não posso ignorar. Foi melhor assim. E hoje tudo que sei é que não somos nada um pro outro. E se você  fosse alguma coisa, você seria a minha ex-decepção.